Iniciamos este blog em outubro de 2008, para divulgar o lançamento do livro de Francisco Dias da Costa Vidal sobre suas memórias da Praia do Hermenegildo. Mas continuaremos contando sobre nossos passeios, nossas experiências, nossas artes, e as novidades do nosso Planeta. Convidamos a todos os amigos a participarem e assim, continuarem a fazer parte da nossa história! Sejam Bem-vindos!

sábado, 3 de julho de 2010

Aniversário - 02 de julho

Sem saber o que fazer para comemorar meu aniversário, um amigo me propos um churrasquinho aqui no prédio, na área de lazer. Antes que todos chegassem, tudo estav pronto.
E quando chegaram, foi fácil. Cada um fez um pouquinho e todos se divertiram!











Obrigada a todos, porque é dessas coisas que a vida deve estar cheia para fazer sentido!

terça-feira, 15 de junho de 2010

Música Libre 1972

Quando chegamos ao Chile em 1972, encontramos um programa de música juvenil, feito lá, com música internacional da última moda. Não havia videoclips, somente se ouvia a música e um grupo de jovens dançava, enquanto um deles fazia os movimentos do vocalista. Durava meia hora por dia, era gravado em estúdio. No verão era feito ao ar livre, geralmente no parque do Cerro San Cristóbal. Começou em 1971, com extrema simplicidade, e foi melhorando até 1975, quando terminou (houve reedições nos anos 80, 90 e 2000).

Lá ouvimos novidades como Wakadi Wakadu (na versão italiana; veja clip da RAI), Alone Again (americana) e músicas argentinas como Salta, Pequeña Langosta, com aquele verso que nunca entendemos (salta salta salta, pequeña, al costado, que hoy están de enganche todos los pescados).

Alguém conseguiu vídeos perdidos de 1972 e pôs num videoplayer com televisor em preto e branco. Um deles é Mama Papa, do grupo Cyan, formado por músicos de estúdio na Itália (não o mesmo grupo inglês dos anos 90). Confiram a letra abaixo (não está checada).

Oh mama, oh mama, ma-ma-ma-mama
Yeah, I wanna your daughter, aha
Oh papa, oh papa, pa-pa-pa-papa
Yeah, I wanna your daughter, aha

Mama, mama, mama, please answer me soon (Be sure you wanna keep my daughter)
Papa, papa, papa, please give me a tune (Daughter, father, father -?)
Tune, a tune, a tune, then try it yourself (All together, dare to ask you)
Lord, oh Lord, oh Lord, there must be a way

Lala, lala...

Mama, mama, mama, I gotta reach out (Father, father, all is just the same)
Oh, papa, papa, papa, I'd even lift my head up (look at you, you look like a dead)
Tune, a tune, a tune, that drives me insane (Dance alone, you can do this thing to me -?)
Lord, oh Lord, oh Lord, listen to my plea

Sombras Tenebrosas

No Chile de 1972, via-se uma série inglesa para adultos chamada Sombras Tenebrosas (Dark Shadows), que muitas crianças não perdiam. Não entendíamos a história, mas sabíamos algo de Barnabás Collins, um vampiro que vivia no meio dos vivos, e de Angélica, uma bruxa que havia sido enforcada e assombrava mais de alguém. Neste trecho dublado em espanhol, uma intrusa senhora Hoffman descobre algo inesperado num ataúde (ver no YouTube).

domingo, 13 de junho de 2010

Retornei de uma missão

Como já tinha pensado e decidido, fui cumprir uma missão no Chile.

Com o falecimento da Nanita, fui a Santiago dia 28 de Abril, por 7 dias.
Não eram férias, mas era uma semana de dispensa que já tinha no trabalho, quando já tinha programado ir a Pelotas pelo aniversário do Papi, da Nininha, Simone e Fenadoce.

(Estas fotos foram no retorno, porque a ida foi a noite, mas começo aqui meu relato lembrando que quando a gente atravessa a Cordilheira dos Andes, tudo muda)

A Cordilheira já estava branquinha, mas ainda pouco para o que deveria.
Na ida, sobrevoamos a cordilheira a noite mas no retorno fotografei e passamos 15 minutos sobrevoando as montanhas, com bastante turbulência.

Vou contar como foi essa passagem por lá.


Cheguei dia 05 de junho, sábado, em Macaé. A viagem ao Chile foi necessária e importante. Uma missão!
Saí de Macaé, sexta, dia 28, às 11h. Peguei o avião no Galeão às 16h e com atrasos, cheguei a Santiago às 22h30.


Lá me esperavam a Mami, a Verônica (que cuidou na Nanita nas últimas horas) e as filhas Carolina (23 anos - estudante de direito) e Catalina (12anos).
Dali, numa noite fria e chuvosa, partimos para Libertad 450.
Depois de conversar um pouco, dormimos as 2h.


Ali, tudo começava.

Aos poucos fui sabendo como seria a semana. O que precisava fazer, mas ainda sem saber exatamente, qual seria minha missão específica naquela jornada que só começava.
As coisas estavam iguais. A mesma esquina, a mesma casa...

Só estranhei um portão de ferro que fecha o beco onde mora a Nanita (mora, ela ainda mora lá). As coisinhas da Nanita, no sofá, deixada pela Mami - uma manta, um cachecol, as peinetas, a maquiagem, o creme Nivea. Do lado do sofá, um altarzinho - a foto dela com Toño, a vela do velório (igual a outra que foi a Doñihue com as cinzas), umas rosas brancas artificias grandes, os óculos.

O relógio, dado pelo Jaime, irmão do Christian, tocando meio desregulado, a mesa grande com mantel, a televisão em cima da comoda vermelha, o baú (que a nanita guardou suas coisinhas e o chamava de "bau de los recuerdos"), o pátio cheio de verde, e as fotos na escada - umas poucas delas deixadas pela Mami. A Poti é a mais presente nas fotos. Acho que eu também. Nessa hora lembrei delas conversando ao telefone no dia 25 de abril. Nunca saberei o que conversaram, mas foi lindo ouvi-las. A Poti muito a vontade convensando. A Nanita do outro lado, talvez se fazendo entender..
O beco continua igual. Com alguns novos moradores - a vizinha da esquerda. Vi o Christian que falou comigo em português de longe. Contou-me que viu a Nanita saindo ao hospital e que jamais queria lembrar dela daquele jeitinho e sim, como éramos, quando crianças - quando nos reuníamos na casa dele, na calçada. A rua com alguns prédios novos e aqueles velhíssimos, próprios do bairro e da região velha de Santiago - alguns deles ruidos pelo último terremoto.
Por ali perto, a Praça del Roto Chileno, o supermercado, a padaria, os mercadinhos, a lanhouse, a lavanderia, a "peluqueira" onde a Nanita cortava e pintava os cabelos.

De repente, a Mami me chama de Nanita. Nossa que susto! e eu disse - "Não te preocupa, ela tá aqui conosco, nos cuidando!". Não se explicam os motivos, mas me senti tão bem na casinha - mesmo com as coisinhas dela ali, separadinhas, como se ela já fosse chegar - a ausência dela era horrivel - mas acho que ela estava ali, nos acolhendo, como sempre fez.

"Mexia" nas coisinhas dela com toda a autorização, com todo cuidado, com todo meu respeito que sempre tive com ela, sentindo que eram parte dela. Ela ficava tão feliz quando eu ligava. E ela, deixou suas coisinhas e deixou suas histórias. As pailas que contramos denunciava nossa infância. O gatinho de pelinhos suaves era o xodó dela. Os cremes e os batons ela nunca esquecia. As faquinhas de cortar "pan" amassado e, abrindo o pão quentinho, era só passar manteiga.

Pedi "permiso" para ela antes de vasculhar seus livros, suas lembranças e suas fotos. Tenho certeza d que ela estava ali comigo, me conduzindo, até cumprimir minha missão.

A Verônica, que cuidou da Nanita nos últimos anos, vizinha, mulher disposta, empreendedora, batalhadora, com jeito próprio de chilena. Mãe da Carolina, na foto abaixo a esquerda, e da Catalina. Elas estiveram conosco, contando, ajudando, orientando...de manhã, de tarde e de noite. As meninas ainda sonhavam com a Nanita, que lhes ensinou sobre a vida.
Os dias foram passando e as descobertas foram sendo feitas.
Soubemos como foram as últimas horas. Muito triste para contar aqui, e tudo que aconteceu nos últimos anos que a Nanita nunca contou para ninguém.

(Foto - Mami e Verônica voltando de San Pablo, de taxi)
Numa das manhã tivemos que ir no INP, instituto de previdência do Chile. Fomos ver a possibilidade de receber o seguro que a Nanita teria direito. Mas não conseguimos, porque ela não tinha irmãs viuvas ou solteiras e nem sobrinhas solteiras e chilenas.
Os dias estavam frios, ensolarado e nublado, com chuva e sem chuva.
Umas quatro vezes, fomos ao supermercado. Na última, fomos comprar coisinhas para trazer.
Aproveitei para tirar umas fotos da praça.
No dia seguinte a nossa chegada, era comemorado o Dia del Patrimonio Cultural. Em muitas partes do Chile, haviam movimentos, grupos dançando, cantando...no Mercado Central comidas típicas e muita gente...e algumas casas pertinho do beco estavam abertas a visitaçã. Esta, mna foto, na esquina por exemplo e a barbearia da esquina da rua Compañia com Libertad. Abaixo, a foto da Barbearia Francesa, ainda em funcionamento, e ao lado funciona um pub ao estilo francês, cheio de antiguidades, charmes e obsjetos antigos.
E no domingo a noite, ficamos em casa e comecei a ver algumas coisinhas da Nanita.

A Mami havia dado todas as roupas da Nanita, depois de lavá-las na lavanderia. Isso era um dos desejos dela. Foram 3 sacos grandes. Tudo foi para o Hogar de Cristo que a Paula, filha da Chela foi buscar lá. (Foto abaixo a Chela e a Paula)

Aos poucos fui revisando os livros. Busquei algumas coisas pessoais dela.
A Mami havia achado uns escritos - folhas soltas em formato de diário, mas com datas saltadas, falando das idas e vindas ao médico.
Tudo empoeirado, algumas coisas rasgadas, amassadas, sujas.
No velador dela, tudo como estava. Na mesinha ao lado, o creme, algumas fotos. A minha foto grande que tirei no Rio de cima do Pão de Açúcar. Outra, do Baia e do Tiito pequenininhos. Na parede, uma foto da Tegualda, junto com outra grande dela dentro da primeira gaveta da comoda embutida.

Pensando em achar algo mais, comecei a organizar os livros dela.
Tudo sujo. Cada prateleira com uns 30 livros, quase todos presentes, em espanhol, em portugues, antigos e um nem aberto. Comecei pelo meio, onde havia uma caixa - nela cheia de cartas nossas - do Tonico pequeno, recém aprendendo a desenhar, a escrever, em portugues em espanhol - um pacote de cartas do Baia, outras poucas do Gordo, da Mana e minhas Achei o telegrama do papi avisando a Nanita que eu tinha nascido e um cartão com 3 anjinhos escrito pela Mami dizendo para ela - "estes 3 anjinhos são os irmãozinhos anunciando a chegada de Ana Teresa", com peso e hora.
Fiquei imaginando o que ela sentia e pensava. Como a gente esteve presente na vida dela e como ela era um símbolo pra nós. Nas cartas contávamos detalhes de nossa vida, de forma ingênua e até engraçada, usando palavras chilenas, mesmo tendo nossos poucos 9 ou 10 aninhos. Ameaçávamos a Nanita se não viesse ao Brasil logo nos visitar ou se não parasse de fumar. nas cartas declaramos nosso amor por ela. Achei uma caixinha de fotos - umas que nunca as havia visto porque tinham sido enviadas a ela e que não temos cópia. Achamos uma que a Mami estava com a perna e o braço engessados e que não descobrimos quando foi.

A cada prateleira, minhas mãos ficavam pretas de sujeira e pó. Mas de repente, achei uma carta dela para o Toño. Me sentei, com muita atenção, na cama dela, acendi a luz e comecei a ler, o que parecia um testamento. Era a carta que ela dizia a todo mundo que deixaria, mas que não sabíamos ainda onde estava. Uma carta muito dura, forte e cheia de coração.
Ela dizia o que deixava para cada um - a casa para Alicia Eugenia e Tantonio - que fosse vendida e entregue a eles o dinheiro. Mas por força da lei, a casa deve ser entregue aos irmãos vivos ou aos descendentes dos irmãos mesmo falecidos.- ou seja, um terço para a Mami, ao Toño e ao Gustavo e a Isabel. Uma máquina de costura a Alicia - "harto poco a quien le debo tanto"; o dinheiro - cerca de 1milhão de pesos (1900,00 dolares) para pagar o enterro, a cremação (desejo dela) o velório, "nada de missa, apenas uma celebração e direto a Doñihue", escreveu ela na carta, para pagar o anuncio no jornal e a passagem para a Mami de ida e volta ao Chile. Em dólares, uns 3mil, para a Mana e eu, se sobrasse, depois de pagar tudo.
"Viste Toño, tengo puras leceritas". Em todo momento ela dizia que não suportava a ideia de incomodar os outros, especialmente o Toño e escreveu "te pago en el más allá y nos veremos en Doñihue". Odiava depender dos outros, pedir ajuda e estar doente.
Imaginem o que significa ler essa cartas, entrega-la a Mami e depois ao Toño.

Essa era minha missão - achar a carta. Tudo ficou mais claro, apesar da dor e das lágrimas que todos derramamos ao lê-la. Que dor!

Mas isso foi necessário e muito emocionante. Fizemos isso um dia antes de irmos embora, na casa do Toño, depois do almoço (fotos abaixo), entregamos a ele uma cópia da carta.

O Pelado e a Isabel estiveram lá em casa´para conversar sobre a casa e de fato eles vão querer a parte deles, que lhes é de direito e legalmente falando. Gustavo tem 3 filhos no Brasil - um musico em Goiânia, outro no Rio e uma casada em Urubici, numa fazenda, SC. Passei meus e-mails para termos mais noticias deles e irmos quem sabe escaneadndo as fotos de todos nós e mandando para eles.

A Mami e eu fomso fazendo tudo aos poucos. Não consegui ir a Doñihue juntas, mas ela foi,para bscar atestados e certidões de nascimento dos nossos avós e tios. Não conseguimos passear, nem aproveitar muito, mas comi muita empanada, do mercadinho da esquina e da padaria. Ao sair da casa do Toño, passamos na padaria que fica ali perto e - que delícia!!! Toratas salgadas, pães, empanadas...Aliás, nem almoçávamos. A noite, uma sopa. Muito suco de durazno e framboesa e, lógico, pan amassado com geléia de durazno con chazinho de boldo e menta. Una tarde, estuvo Inezita, afilhada da Tegualda.
ALMOÇO NO DOMINGO NO RESTAURANTE JUAN Y MEDIO - DIA DO PATRIMONIO CULTURAL

No domingo, fomos almoçar todos juntos no Restaurante Juan y Medio, na Plaza Brasil (foto abaixo) - Toño, Alicia, Alicia Eugenia, Felipe, Maria José, Nana y e nós - era o dia do Patrimônio Cultural.

Enquanto esperávamos mesa, escolhemos o cardápio, tiramos fotos e conversamos. A Mami disse que lá passavam a adolescencia e a juventude.
Mas hoje até cheiro de maconha.
Havia muito movimento pelas ruas.
O Restaurante Juan Y Medio não é exatamente de comida típica chilena, mas de comida caseira. Juan era um homem muito grande e comia muito. A esposa dele lhe servia pratos enormes. E hoje, com um restaurante a beira da estrada de quem vai ao sul, em Santiago também servem no mesmo estilo, com pratos grandes e com um jeito diferente de cozinhar.
Depois do almoço que foi até as 16h, fomos passear no shopping Parque Arauco. Tomamos café, medias lunas e todos foram embora. Mami e eu ficamos para esperar a Viviana, chilena que conheci em Buzios.



COMO ESTÁ SANTIAGO?
Santiago continua igual - tradicional e moderna. Da região oeste a leste da cidade, passamos pela via rápida que passa em baixo do Rio Mapocho, para agilizar o trânsito e unir as pontas da cidade em minutos.
Na foto, a cordilheira iluminada e o rio Mapocho.
Na foto abaixo, o prédio mais alto do Chile.
Aliás, nada na cidade demonstra que houve um terremoto com grau 8,8. Nem os vidros, nem as portas, nada.
Abaixo na frente da casa da Gaby e Pepe.
RETORNANDO - VIA MONTEVIDEO

Os dias passaram rápido demais, mas foram intensos. Naquele dia, anterior a nosso retorno, ficamos com água fria, sem calefação. A Noite estava mais fria do que o normal. Pela manhã, as 3h45 a Veronica e Carolina acordaram conosco e nos despediram quando chegou a van.
Assim, fomos ao aeroporto, que naquela madrugada geladíssima, estava mais fria que nunca.
Ao chegar no aeroporto, a calefação ajudava muito. Comprei algumas lembrancinhas e despachamos a bagagem. Pagamos US$186,00 por excesso de bagagem...levamos um susto, pois não sabíamos que na PLUNA se paga por qualquer peso...nada é gratuito, como nas demais.
O avião atrasou uma hora e meia e quando tivemos que embarcar descemos ao ar livre, por uma escada, pegamos um ônibus e demoramos para subir as escadas sacolejantes do avião pequeno da Pluna.
E de repente, começou a chover e tirei esta foto abaixo.
ME DESPEDINDO DO RIO GRANDE DO SUL
Ao chegar em Porto Alegre, tudo que queríamos era um chuveiro quente e uma cama para descansr. E assim foi.
Descansamos bastante, arrumamos de novo as malas e parti para o aeroporto e a Mami para a rodoviária.
Abaixo, uma foto de Porto Alegre, e vista do Rio Guaiba e coemço da Lagoa dos Patos.
O ar estava limpo e o dia clarissimo.

Em Setembro, a Mami pensa em voltar ao Chile para definir coisas que ficaram pendentes.
A vida "carrega" a gente e hoje depois de 15 dias, a saudade fica.
Muita saudade!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Nanita...um anjo no cèu!


Que foto boa, não é! Alegria, conversas, histórias,"recuerdos"...cada canto daquela casa (foto) em Doñihue, ao sul de Santiago, lembra a infância, a kombi, os primos, os tios...

Aos nossos leitores, que por ventura passem por aqui, saibam que nosso coração chileno hoje está partido ao meio, ainda em recuperação, com a sensação de perda e que de algo ficou grudado no tempo e no espaço, na imagem desta tia chamada Eliana, nossa Tita, a Nanita.
Foi domingo, as 11horas quando minha mãe me ligou desde Pelotas e eu aqui, em Macaé, acordando num dia ensolarado.
Não muito surpresa pela ligação, mas com dor pelo que ouvi - "uma notícia muito ruim, muito ruim", disse ela. " A Nanita está em coma".
Do outro lado da linha, talvez dois mil quilômetros de distância, silenciei. Segundos, ...não sabia o que dizer. Pressentia algo rruim, muito ruim.
Como conscientemente fui eleita a "senhorita internet", minha mãe me pediu para tentar acha r a passgem mais rápida para ir a Santiago do Chile. Temendo o pior, preços altos ou falta de vagas nos vôos, tive uma sorte bárbara de conseguir vôo quase direto naquele domingo, Porto Alegre-Santiago, via Buenos Aires. Escala rápida, coisa de uma hora.
Assim foi.
Enquando via as passagens, todo o tipo de simulação possível, tomando um café preto, um banho rápido, depois de mais de uma hora, um novo telefonema - "A Nanita faleceu".
S i l ê n c i o.....................................segundos que demoraram uma eternidade.

Aquela tarde de domingo foi a pior dos últimos tempos.
Não consegui falar com ninguém - só via televisão e chorava, sozinha no meu apartamento.
Mandei torpedo pros irmãos...mais s i l ê n c i o..........................pra Simone, que me respondeu sentindo uma dor parecida.
Esta época guarda momentos tristes e felizes para nossa família.
Domingo, dia 16 de Maio.................domingo.................Acho que Deus encontrou o dia da semana mais cômodo para todos nós - pudemos chorar sozinhos em casa, rezar, ir a missa, ligar, saber notícias, reunir-nos pelo messenger, pelo skype, pelo celular. De uma coisa estou certa - eu não conseguiria trabalhar naquele dia.
Cada um com sua dor, com seu penar, seu pesar...o choro foi de pena? de tristeza? talvez não...Foi de saudade? Não sabia explicar.
Muitos amigos me disseram que ela já havia vivido o suficiente e que Deus chamava ela e que por isso, não deveríamos chorar.
Mas para todos, existe algo que a Nanita levou com ela - a infância mais rica que uma criança poderia ter. Ela fumava muito e nós escondíamos os cigarros dela, sentindo-nos vitoriosos por ajudá-la na nossa mais ingênua intenção. Passávamos 3 meses no Chile, na casa dela. Ela vinha e passava meses conosco em Pelotas. Éramos muito pequenos e isso foram anos de vida.
Essas lembranças perduraram - os passeios, as conversas, as batidas de banana amassada, as brincadeiras na calçada, as aventuras pela cordilheira, pelas piscinas da cidade, as reuniões dos parentes, dos tios, dos primos, separando as brigas, defendendo os menores.
Sempre com o jeito de professora primária, acostumada com travessuras de crianças - cinco sobrinhos, apesar de trabalhoso, era o ambiente dela. Ela nos ajudou a dar as primeiras pedaladas de bicicleta...Ah, e as empanadas da Nanita?- Ah, aquelas empanadas não tinham iguais. Ainda bem que comi várias e disse isso a ela. Mesmo com as mãosinhas com artrose, lá estava ela, colocando seus segredos naquela massa.


Acho que esta foto foi o último passeio que fizemos juntas - foi em 2005 - no início do ano, quando os pais do Tom foram ao Chile. Depois de irmos ao sul, de trem e carro, despedi-me deles antes de atravessarem a cordilheira a Bariloche. Fiquei em Puerto Varas mais um dia e voltei de ônibus para Santiago. Deixei de refazer a travessia mais linda do mundo pelos lagos para voltar a Santiago e ficar com ela. "Por que não quiseste atravessar a cordilheira?" me perguntou ela. Disse "Já conheço. Prefiro ficar aqui contigo e conversar".

Faz uns 5 anos, vinha ligando para ela todos os meses.
Conversávamos horas, sobre tudo e no final sempre perguntava - "Agora, senhorita, quero perguntar o mais importante - e o teu coração, como vai?".
Solteira, com um casamento muito rápido de onde saiu quase fugida, ela era liberal comigo - sempre me dizia que os homens só incomodam e que os filhos sempre decepcionam, demonsttrandoo que viveu, a dor que sentiu e que assistiu vendo a vida dos parentes, dos amigos. Eu dizia - "solteira mas sozinha nunca". Ela dizia - "eso si me gustó!!!" E ria comigo.


Falávamos de coisas amenas, das mudanças na minha vida, sobre o aparatemtno quando me mudei, do trabalho novo, dos amigos, do grupo de rh que participo, das fofocas da familia, das maravilhas da Poti, da Nininha, afinal, era minha vez de ser a tia babona. E como ela repetia e imitava a Potira, através das histórias que a Mami contava. Dia 25 de abril, aniversário da Mami, a Potira e a Nanita conversaram por minutos. Que divertido isso!

Política? Claro, ela sabia de tudo que acontecia em todas as partes. Sobre o Chile, tinha sua opinião firme e forte. Ela era braba com os governantes. Quantas vezes a vi reclamar, opinar, criticar. Me contava tudo que escutava na rádio, lia no jornal quando podia.
Sinto não poder ter ido de novo. Mas ficávamos horas conversando.


Depois desses 5 anos, da última vez que a vi, estava magrinha. Ela me perguntou:> " Porque me dizem que estou magra se nunca fui gorda?"
Apesar de seus quase 84 (faltando dias), estava consciente de tudo, de memória invejável, postura de lutadora, com uma forma muito peculiar de levar a vida, com manias escondidas de beber um copo de vinho antes de dormir...mas o que é um copo de vinho para uma chilena como ela? Nada! Mas não era um copo, mas isto, não vem ao caso.
Mas é certo - hoje vou ao supermercado comprar vinho e vou direto ao "Gato Negro ou Gato Blanco". Foi ela que me deu uma garrafa desse vinho lá em Santiago - que delícia! E parece que Gato Negro já atravessou fronteiras e chegou a Macaé, como bom vinho que é.

Mas ela também escondia - tinha dores fortes, talvez de estômago, de intestino e aguentava firme a dificuldade de caminhar por ter caido e quebrado perto da cabeça do fêmur. Andava de "burro", froma de chamar o andador. Esteve meses sem poder dormir na sua cama. Dormia no sofá da sala. No inverno isso era um martírio para ela, mas disfarçava e não reclamava.
Lutadora e perseverante, aos poucos, conseguiu subir ao segundo piso e só decia e subia uma vez por dia.
No dia do terremoto, a Verônica, que estav cuidando dela. saiu correndo de casa. em plena madrugada e na escuridão, ela gritava na rua - Nanita" Nanita, espere que vou buscá-la!" A Nanita tinha fechado a porta de casa pelo lado de dentro. Verônica pulou o muro do vizinho e ajudou a descê-la. Deixou uma lanterna com ela e foi ver os filhos. Ela me contou essa sensação terível.
Mais tarde soubemos que ela teria pedido a Verônica para passear pela cidade para ver as consequências do terremoto. Corajosa, mesmo cheia de dor, não queria perder nada.



A casinha dela é um duplex, onde ficávamos todo nós durante nossos passeios ao Chile.
Enchíamos a casa, corríamos pelas escadas, entrávamos e saíamos. Enquanto os meninos viam filmes de terror na parte de baixo da casa, ela ajudava as irmãzinhas menores a não ter medo - ligava a vitrola no quarto com músicas bonitas, fechava a porta e aumentava o som.
Ai, Nanita....cuanto te añoro! Para quien voy a llamar ahora?
Faltam menos de 2 dias para eu chegar ao Chile.
A Mami está lá. Vou buscá-la. Vou ver meu tio. A dor é enorme.
A Nanita era importal para nós, para mim.
Sua alma foi direto ao céu. Ela já está lá, junto com Deus olhando por nós.
Olhando pelos sobrinhos que cuidou tanto.
Pelor irmãos, de quem tanto se preocupou.
Ela está junto da Tegualda, do Gustavo, da Tata Ina, do Abuelito Manuel Antonio.
Hoje seria seu aniversário:
- Feliz aniversário, meu anjinho no céu! E por favor, cuida de nós...só mais um pouquinho!